Uma cidade de cenário paradisíaco, um aeroporto e quarenta passageiros à espera do voo prometido. Essa história não aconteceu exatamente em um coletivo, mas em virtude de um. Esqueça todos os filmes de terror sobre viagens aéreas que você já viu. Isso aqui é real e aconteceu comigo.
Depois de cinco dias cobrindo um evento para nerds em San Francisco, retornei pra casa. O check-out do hotel tinha de ser feito até o meio-dia. Como as palestras do evento começavam as 08h30 da manhã, precisei acordar às 07h30 para tomar banho e desocupar o quarto. Depois de um dia cheio, eu e um outro jornalista brasileiro que também tava por lá fomos para o aeroporto da cidade.
De lá, voaríamos para Miami às 23h35. Detalhe: chegamos um pouco cedo demais no aeroporto - três horas de antecedência!!! Deu tempo de dormir, ir ao banheiro, comer, dormir de novo, ir ao banheiro de novo... Enfim, embarcamos. Cinco horas de viagem, mais o fuso horário, chegamos em Miami na sexta às 07h30 da manhã. Mais quatro horas e meia de espera até pegar o avião pra Sampa. Pensei comigo: “Tudo bem, quatro horas passam rápido”.
Quase meio-dia: tripulação preparada, passageiros dentro do avião. Voo vazio, quarenta pessoas só... que beleza! Dava pra cada passageiro pegar três poltronas e fazer uma cama. Pensei de novo: “Opa, umas onze da noite já vou tá em casa, de banho tomado e janta na mesa”. Bom demais para ser verdade.
Depois de dar um rolê na pista, o avião parou. O piloto avisa: “Temos problemas técnicos, mas resolveremos em poucos minutos”. Ficamos mais de uma hora parados com um calor do Senegal dentro da aeronave. E lá vem o piloto de novo: “Nosso sistema de ar condicionado está com problemas e todos os passageiros terão de desembarcar com seus pertences até arrumarmos”.
Lá vamos nós, cada um com sua bagagem de mão, de volta pra sala de embarque. No caminho, uma mocinha muito simpática com travesseiro debaixo do braço comentava sobre o avião da AirFrance que sumiu no Atlântico. “Logo, logo os corpos começam a boiar”. Isso lá é conversa de quem acaba de sair de um avião que teve problemas técnicos antes da decolagem?
Pediram mais duas horas de espera. Beleza. Pra quem já tava ali há sete horas, mais duas não matariam ninguém. Deu quatro e meia da tarde e nada de volta pra casa. Uma chuva digna das enchentes do Norte e Nordeste caía do lado de fora. Somos comunicados que o voo foi cancelado e que partiríamos junto com a galera do voo seguinte, às 20h15. Porra! Por que não falaram antes? Dava pra passar o dia inteiro na praia!
Pra “compensar” toda a espera, a companhia deu um vale-refeição de 10 dólares pra cada passageiro. Eu, cansado de comer pizza, hamburguer e hot dog, andei o aeroporto inteiro atrás de comida de verdade. No fim, comi uma lasanha mesmo. Como a rede wi-fi do aeroporto era paga, o jeito era passar o tempo fazendo novos amigos e testar cada poltrona da sala de embarque. Me senti o próprio Tom Hanks no filme “O Terminal”.
Às 21h30, mais de uma hora após o previsto, decolamos. Chegamos em Guarulhos às 07h30 da manhã de sábado – ou seja, 48 horas depois de tomar meu último banho. Mas se tava ruim, podia piorar. Imagine, por exemplo, se eu estivesse com uma gripe suína, ou se fosse barrado pela alfândega ou, sei lá, que extraviassem minha mala. Pois é. Não é que, na hora de pegar as bagagens na esteira, a galera do voo maldito ficou de mãos abanando? Todo mundo fazendo filinha na frente do balcão da companhia pra reclamar. Tinha só um cara pra atender 40 pessoas. Deu duas opções, ainda: podíamos aguardar a mala ser entregue em casa ou esperar o próximo voo.
Não pensei duas vezes: fui pra casa! Peguei o táxi e outro tormento: trânsito do diabo na 23 de maio. No fim, fui chegar em casa mais de onze da manhã de sábado, depois de 52 horas sem banho. E as malas? Só chegaram no domingo.


























