Em meio a todo esse pega-pa-capá do TCC, que é sobre movimentos sociais periféricos, esse é o máximo que posso colocar aqui por enquanto: uma entrevista com o Sérgio Vaz, que lidera a Cooperifa, feita para a revista experimental da faculdade. O cara é animalescamente genial...Pra manos e playboys
Nos rincões da maior cidade do País, um homem recita poesias com intensidade que chama a atenção de quem vive no centro.Certa vez, o antropólogo Hermano Vianna falou que a periferia é o que há de mais pulsante na sociedade brasileira atual. É o lugar onde pessoas passaram por cima das adversidades, cansaram de esperar ajuda de fora e decidiram mostrar aquilo que sabem fazer. O resultado é um interesse crescente de quem mora em regiões mais abastadas pelo que surge às margens das grandes cidades.

Um claro exemplo desse movimento é a Cooperifa – Cooperativa de Cultura da Periferia, criada em 2001 pelo poeta Sergio Vaz, 44, e alguns amigos. Todas as quartas, a Vaz reúne cerca de 400 pessoas na zona sul de São Paulo para recitar e ouvir poesias. Há gente que vem da Vila Madalena, do Brooklin, do Centro, de outras periferias e até da Nigéria.
Vaz nasceu no vale do Jequitinhonha, região pobre de Minas Gerais, mas veio para São Paulo aos três anos de idade. Na capital paulista, sua família se instalou em outra região pobre: em Piraporinha, bairro vizinho a Capão Redondo, Jardim Ângela e Jardim São Luis.
Palmeirense fanático, Vaz cresceu jogando bola na rua. E, como outros garotos da periferia, via crimes acontecerem na esquina da rua de casa. Mas a família sempre foi exemplo para ele. “Eu venho de uma família simples, mas nunca faltou livro na minha casa. Meu pai lia muito. Daí, começou o meu fascínio pela literatura”, conta.
Na prateleira, escritores como Ferreira Gullar e Gabriel García Marquez. “Eles me inspiravam porque era uma literatura que não era só literatura. Era uma literatura que queria mudar o mundo”.
Apesar de ter estudado somente até a oitava série, Vaz tem consciência de que a arte pode transformar o ser humano. Por isso, não se conformava com as condições de vida na sua região. “Eu pensava: ‘Meu, parece que eu tô em outro país. Parece a Palestina’”. E, numa época em que todo mundo queria se mudar da periferia, ele queria mudar a periferia. Foi aí que a Cooperifa começou a ganhar forma.
Em janeiro de 2001, ele e uns “trutas” se juntaram para fazer saraus no Garajão, um bar em Taboão da Serra, para onde ele se mudou e vive até hoje. O primeiro dia de sarau teve 17 pessoas, mas foi ganhando público com o passar do tempo. Um ano e meio depois, o bar foi vendido e a Cooperifa se instalou no Zé Batidão, outro bar, em Piraporinha, onde Vaz passou a infância e a adolescência.
Depois disso, surgiram eventos como a “Semana de Arte Moderna da Periferia”, convites para se apresentar em outras cidades do País e o título de maior sarau do Brasil. Vaz já publicou dois livros, “Colecionador de Pedras” e “Cooperifa – Antropofagia Periférica”. A mais nova investida dele é o cinema na laje, em que ele exibe filmes de graça para a comunidade. Não é à toa que ele desperte curiosidade.
Segue a entrevista:
Quem frequenta os saraus da Cooperifa?Sérgio Vaz - Mano, aparece de tudo aqui. Um dia, veio o príncipe da Nigéria (Otunba Adekunle Aderonmu) com o pessoal do Consulado Negro; no mês passado, vieram quatro americanos; outra vez, apareceu uma kombi com um monte de venezuelanos, argentinos, sabe? Quem é ligado na arte, na cultura, tem que ir à periferia, tem que conhecer o sarau da Cooperifa. Hoje, o sarau é frequentado por 60 por cento de gente da quebrada e 40 por cento de fora. É uma galera de outros bairros, outras quebradas, do centro.
Como esse pessoal de fora é recebido?Vaz - Nós temos a preocupação de não reproduzir o preconceito. Então todo mundo pode participar, independente da crença, da cor ou da classe social. Só que tem aquela coisa: o silêncio aqui é uma prece e o cara tem que respeitar. Não importa de onde vem, que se foda: tem que respeitar.
O que você acha do interesse da classe média nos saraus?
Vaz - Por um lado, tenho medo de gente que vem para periferia com um edital do Ministério da Cultura nas mãos para faturar em cima da gente. Eles só precisam de um pobre para corroborar e, depois, ganhar dinheiro em cima da gente. Mas oportunista existe em todo lugar. Por outro lado, é muito bacana. Eu amo o que eu faço, amo a periferia, mas penso que a sociedade tem que ser uma coisa só. Acho bom a classe média frequentar a periferia, até para tirar o estigma de que isso aqui é só violência.
O que a classe média busca em vocês?
Vaz -As pessoas saem do centro em busca do novo. Não que eu ache que o que fazemos aqui seja novo. Parece novo porque nós da periferia, depois de 500 anos, estamos tomando posse da literatura e da poesia. E estamos fazendo isso com tanta paixão que as pessoas se emocionam, se interessam. E, se agente quer lutar contra a desigualdade, a gente tem que se unir. Assim como eu não gosto que generalizem a periferia, eu também não gosto de generalizar a classe média. Muitas vezes, quando se fala da periferia, parece que está agredindo alguém. Eu não sou contra o centro. Eu sou a favor da periferia.
E qual o efeito para o pessoal da “quebrada”?Vaz - Em primeiro lugar, auto-estima. Quando eu morava no Piraporinha, tinha que mentir o endereço para conseguir emprego. Há 30 anos, existiam aqueles programas de crime e o cara perguntava onde você morava. Se eu falasse que morava no Piraporinha, já era. Tinha cara que pegava endereço do Socorro, outros lugares. Hoje, a periferia tem outra postura. Quando perguntam para o cara onde ele mora, ele fala: “Eu moro onde tem o sarau da Cooperifa”. Acho que esse é o grande achado.
Recentemente, a Cooperifa inaugurou o “cinema na laje”. Como surgiu essa ideia?Vaz - O cinema mais próximo da gente, no Shopping Interlagos, passa “Homem Aranha”, que é coisa de Hollywood. A gente pensou: “Tem tanta gente fazendo coisa bacana na periferia. Vamos mostrar isso pra galera!”. A gente queria um lugar para dar vazão a tudo que eles estão fazendo, reproduzir uns documentários, fazer o pessoal refletir. Aí surgiu a laje do Zé Batidão, que é o mesmo cara que cede o bar para os saraus. Lá, nós passamos filmes de quebradas do Brasil e do mundo. E outros filmes também. Mas a ideia é ver o cinema de outra forma. Nós temos lanterninha, temos pipoca grátis, temos a lua grátis. Então, não tem como o cara falar que o cinema é caro ou longe. É isso que queremos: criar possibilidades para o cara conhecer o cinema.
Quais os próximos projetos da Cooperifa?Vaz - Nós tivemos há pouco tempo o “Poesia no ar” (centenas de pessoas soltaram balões com poesias nos céus da cidade). Além do sarau todas as quartas, a gente tem o sarau nas escolas. Fizemos sarau também na Fundação Casa. Temos outro projeto que se chama “Chuva de Livros”, em que distribuímos 500 livros pra galera da quebrada. E tem a Mostra Cultural, para comemorar nosso aniversário. É uma semana inteira com atividades culturais. Um dia, teatro; no outro, cinema; no outro, dança; no outro, música. E por aí vai.
O que a periferia quer hoje?Vaz - Pelo menos do ponto de vista artístico, a periferia quer ser protagonista. Eu passei todo esse tempo vendo todas as coisas acontecendo no centro. Música, teatro, cinema, pá, tudo no centro. Hoje a molecada da periferia tá editando livros, tá com câmera na mão fazendo curtas para colocar na internet. A periferia não quer mais ler a história dos outros. A periferia quer colocar seu polegar na história também. Apesar de todas as dificuldades, as pessoas estão correndo atrás. Tem uma frase que a gente usa muito que é “estar vivo é muito pouco, nós queremos muito mais”.
A periferia está mudando?Vaz - Com exceção de equipamentos para cultura, são poucas coisas que a periferia não têm hoje. Antes, para comprar um móvel ou qualquer coisa, você tinha que ir lá no Mappin da Praça Ramos. Hoje não é mais aquela coisa pobre que era para a maioria. Tem bares, tem casas de show. Essa coisa que o hip hop enfatiza, tipo “sou do Jardim Ângela”, “sou do Grajaú”, é algo que os cariocas fazem muito bem no funk deles. A periferia de São Paulo começou a ter orgulho. Não orgulho da pobreza, porque disso não dá para se orgulhar, mas das pessoas que vivem ali. A gente tem orgulho de ser da periferia, onde as pessoas se respeitam, se ajudam, se solidarizam. E eu amo a periferia.
Serviço:
- Sarau da Cooperifa
Todas as quartas, a partir das 21hs
- Cinema na Laje
Quinzenalmente, sempre às segundas, a partir das 20h30
Ambos os eventos acontecem no bar do Zé Batidão
Local: Rua Bartolomeu dos Santos, 797 Chácara Santana - Zona Sul